quarta-feira, 21 de março de 2012

Brincadeira de primas- Beatriz Vettorazzo


Nem sempre

Chovia, mas eram férias e nada podia nos acalmar, nem o barulho das grossas gotas no teto de alumínio que, apesar de agudo, passava despercebido.
            Éramos modelos, os sapatos grandes, as flores molhadas no cabelo e os prendedores que marcavam a passarela. O guaraná na taça de cristal até então escondida no fundo do armário e usada só em grandes ocasiões.
            Mas aquela era uma grande ocasião. Nem sempre se é modelo. Nem sempre há chuva para desfilar.
            Foi quando minha avó chegou. Os sapatos foram perdendo a graça e as taças já não eram mais de cristal. O alpendre bagunçado, os sapatos estragados, a bronca bem levada e o castigo malcriado. 
            Nem sempre se é modelo. Nem sempre há chuva para desfilar. 

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